Entre linhas e trilhos da memória, população do Parque Shalon contou sua história de luta e superação

(Por Ingrid Vogl)

 

Foi a partir de conversas que relembravam trajetórias de moradores do Parque Shalon que o grupo que frequenta a oficina Corpo e Mente, do Centro Promocional Tia Ileide (CPTI) resolveu passar da oralidade para a escrita sua própria história.  Assim nasceu o projeto que deu origem ao livro “Entre linhas e trilhos da memória- Shalon conta sua história”, que relata a história do bairro a partir de depoimentos dos moradores da região que rememoram vivências desde o processo de ocupação da região, na década de 90.

Hoje, com cerca de 270 famílias, os moradores têm orgulho de ter escrito sua própria história a partir de questões sobre ancestralidade que foram despertadas durante a oficina, que traz atividades laborais e de expressão corporal, além de elementos da cultura popular de várias regiões do país. Durante as pausas para o café, as histórias começaram a surgir em bate papos. 

“Na oficina, temos uma preocupação com o patrimônio imaterial, e não só material, e fazemos isso trabalhando com oralidade. Quando a gente começou a ouvir as histórias de como foi a construção desse patrimônio, isso trouxe à tona tudo que a gente tem guardado que é a vontade de se expressar. E através do livro a gente fez isso. É uma memória viva do nosso bairro, que foi construído com as tecnologias e os conhecimentos populares de diversos dos moradores. O povo que não conhece sua história não tem identidade”, explicou Marcos Alberto Simplício, educador social do CPTI.

Pesquisa

Para elaborar o livro, o grupo fez caminhadas pelo bairro, onde os nomes de ruas homenageiam antigos moradores. Após os passeios, eles rememoravam histórias sobre eles. O projeto foi crescendo e envolvendo cada vez mais os moradores do bairro e pessoas de outros locais.

Jovens participaram em oficinas de grafite expressando esta arte em muros da comunidade, formando uma verdadeira galeria a céu aberto, com temas que se identificam com o dia a dia da comunidade. Houve também a participação de Olga Rodrigues de Moraes von Simson, socióloga do Centro de Memórias da Unicamp que apoiou o processo de elaboração do livro. 

Os próprios usuários do CPTI se dedicaram na criação de marcadores para os livros. A comunidade se organizou para o lançamento em agosto de 2019 e apresentou  um espetáculo teatral que representou a história do bairro retratada no livro.

“Durante o trabalho de fazer o resgate histórico de como surgiu a ocupação, descobrimos fatos importantes, como o papel essencial das mulheres na história do bairro. Ao contrário do que se pensava, a maioria das famílias não veio para cá por conta da proximidade com o complexo penitenciário, mas sim pelo direito à habitação, sendo a primeira liderança comunitária, uma mulher”, contou Tamiris da Silva Eugenio, assistente social.

Além dos depoimentos dos moradores, o livro traz imagens de como o bairro era em seu início e fotos recentes, que mostram como foi a evolução da região. Na capa, a foto escolhida foi a grande figueira que fica na entrada do bairro e é referência de localização entre os moradores. Os trilhos da ferrovia também estão presentes no livro, outra característica que marca o bairro.

Comunidade fortalecida

Todo o processo de elaboração do livro, que durou cerca de um ano, aproximou e engajou a comunidade. Como foi o caso de Sebastião Dias de Oliveira Neto, morador que está desde o início do bairro Shalon e que se envolveu de corpo e alma no projeto e hoje, participa ativamente das atividades do CPTI no bairro. 

“Foi gratificante participar de tudo isso. O importante é que o livro e nossa história vão ficar para a comunidade e as próximas gerações que vem vindo, para meus filhos e netos, para que eles tenham orgulho de nossa história e que continuem na luta pelos direitos da comunidade e do bairro. Este livro é o nosso troféu”, disse seu Sebastião. 

“Tive a oportunidade de escrever as histórias dos meus pais quando eles chegaram aqui. Eu vi toda a luta deles para se estabelecerem no Shalon. Para minha mãe foi um orgulho enorme, porque ela é uma das personagens do livro e no dia de seu lançamento, deu autógrafos com a presença de familiares.  Foi uma vitória escrever sobre nossa luta”, disse Kelly Justino Dias.

Para Maria Aparecida dos Anjos, as conversas e pesquisas para a elaboração do livro da comunidade ainda trouxe novos conhecimentos para os moradores. “A partir das reuniões ficamos sabendo mais sobre leis, direitos e deveres do cidadão. Aprendo e quero aprender mais ainda com tudo isso”, disse. 

Planos futuros

Engajado e orgulhoso, o grupo que encabeçou o projeto do livro já tem planos para que o trabalho tenha continuidade. “Queremos construir mais experiências entre nós, a partir dessa que já começamos a construir. Que essa rede de histórias nunca acabe, e que a comunidade se fortaleça cada vez mais com isso”, desejou Marcos, que junto com o grupo, planejam levar o livro de memórias do Shalon para a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), no próximo ano. 

A elaboração do livro teve apoio do projeto Empreendedorismo de Base Comunitária (EBC), iniciativa da Fundação FEAC que tem como objetivo investir em iniciativas que resultem em qualidade de vida e bem-estar social e estimulem o exercício de atuação coletiva para transformação do território. Os recursos foram usados para a publicação dos exemplares. 

 

O projeto Empreendedorismo de Base Comunitária da Fundação FEAC é uma iniciativa do Programa Desenvolvimento Local, que investe na mobilização comunitária com o objetivo de transformar territórios gerando bases para uma cidade mais inclusiva, acolhedora, eficiente e sustentável.

Mais informações: https://www.feac.org.br/empreendedorismo-de-base-comunitaria/