Legumes, verduras, frutas, pancs (plantas alimentícias não convencionais) e plantas medicinais. Alimentos de todas as cores, formas, texturas, cheiros e sabores. Tudo isso praticamente na esquina da sua casa. Não seria legal? Essa tem sido a realidade da comunidade do Jardim Florence, no Campo Grande, após a implementação do Projeto Piloto Cultivando, fruto da parceria entre a Fundação FEAC, o negócio de impacto social Pé de Feijão e a Prefeitura Municipal de Campinas.

A iniciativa deu origem à Horta Comunitária do Jardim Florence, inaugurada no último sábado (15). Envolve oficinas de prática agrícola, compostagem e reaproveitamento de alimentos, além de aulas sobre alimentação e questões voltadas à saúde. Os objetivos são garantir a segurança alimentar no território, permitir o acesso a uma alimentação mais saudável, fortalecer vínculos e relações de pertencimento e levar conhecimento àquelas populações, podendo, futuramente, ser também fonte de geração de renda.

“Essas hortas permitem o cultivo dos alimentos frescos, naturais e saudáveis nas áreas urbanas. A gente diminui a dependência dos alimentos que vêm de longe, principalmente em regiões em que o acesso a esses alimentos é limitado”, explica Juliana Guerrero, nutricionista do Pé de Feijão.

Alimentos frescos e saudáveis na esquina de casa

As hortas também trazem uma mensagem educativa, de estimular pensamentos e atitudes mais sustentáveis, de reconectar as pessoas com a natureza e dar uma maior importância às questões ambientais, conscientizando a comunidade. Juliana conta que é uma oportunidade de aprendizado para adultos e para crianças, que participam dos cuidados da horta e já se interessam pelo assunto.

De acordo com um estudo realizado em 2020 pelo professor de Economia da Unicamp Walter Belik, apenas 10 alimentos respondem por quase metade da dieta dos brasileiros. As hortas urbanas vão justamente na contramão dessa tendência, tentando ampliar a oferta. No Jardim Florence já são mais de 50 variedades cultivadas, mostrando à população a riqueza que pode ser adicionada ao prato. São muitas as possibilidades: tudo o que é produzido no território pode ser utilizado para fazer compotas, chás, temperos e compor a alimentação das famílias.

Essa inclusão acontece de forma muito natural, já que, a partir do momento em que participam das oficinas e do plantio, as pessoas têm vontade de inserir em sua alimentação o fruto de seu trabalho, de replicar dentro de casa os conhecimentos adquiridos no local. Assim, passam a levar as mudas para cultivar no próprio quintal, distribuem para os vizinhos, testam novas receitas e acabam sendo verdadeiros multiplicadores da horta.

Mais saúde e bem-estar

“A gente tem a oportunidade de mostrar para a comunidade essa diversidade, inclusive de alimentos que não precisam de tantos cuidados, como as pancs, mas que são altamente nutritivos. Eu acho que tem muito essas questões de saúde e bem-estar como um todo, porque além de você melhorar a alimentação, também tem uma melhora da saúde física e mental”, ressalta a nutricionista. 

Uma pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Fisiologia Integrada e do Centro de Neurociência da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, comprova que mexer com a terra e com as plantas tem efeito terapêutico, além de combater transtornos psiquiátricos. A prática é chamada de hortoterapia e é conhecida por ser uma forma de lidar com questões relacionadas à saúde mental.

Juliana revela que uma das participantes da horta chegou a mencionar que os próprios filhos reconheceram que ela está mais tranquila e menos ansiosa, depois que começou a frequentar o plantio do Jardim Florence.

“Conversei com um senhor que é aposentado e que falou que essa horta veio para salvar a vida dele, porque ele sai de casa para ir até lá, cuida das plantas, conversa com elas, faz amigos. Então deu um novo sentido para a vida dele”, complementa Vandecleya Moro, secretária de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos da Prefeitura de Campinas.

Horta urbana era espaço para descarte de lixo e entulho

Desde a implementação da horta, vizinhos passaram a se conhecer, conviver, interagir e trabalhar juntos por um objetivo comum. Tanto a Prefeitura quanto a FEAC e o Pé de Feijão reforçam como é nítido o engajamento da população e a vontade de estar lá participando. Em junho, a comunidade até organizou uma festa junina para confraternizar e cada um levou um prato de comida para a oficina. Essa relação foi intensificada após a crise sanitária vivida nos anos anteriores. “Depois da pandemia, nós passamos a perceber e valorizar o quanto é importante viver em comunidade, não viver cada um isolado, mas ter rodas de conversa, convivência. Ali, podemos interagir e mobilizar outras ações através do convívio entre a própria comunidade”, diz a secretária.

“Para além da produção e formação em prática agrícola, o projeto contribui para a relação da comunidade, além de dar um uso para uma área que estava ociosa na cidade”, destaca Bárbara Suzuki, especialista em espaços públicos da Fundação FEAC. Ela relembra que, antes de se transformar na horta, a área servia para descarte de lixo e entulho. Havia toda uma preocupação com as doenças que poderiam proliferar ali e de como essa área poderia ser melhor aproveitada.

Assim, o projeto também é uma forma de promover a revitalização da cidade e dos locais públicos. “Existem espaços que eram inutilizados ou utilizados de forma inadequada e que, hoje, podem servir como um coração na cidade, pulsando, gerando renda, alimentos saudáveis e aquela percepção de comunidade”, explica Vandecleya.

Projeto propicia aprendizados e troca de experiências

Para além do cultivo em si, o projeto oferece outras atividades, como rodas de conversa e oficinas, tanto para a capacitação quanto para o entendimento das demandas da população.

Juliana conta que funciona como uma horta-escola, com ambiente de diálogo e troca de experiências, a fim de que todos participem do projeto, colocando a mão na massa e aprendendo desde o manuseio das ferramentas para o plantio, até a importância de cada alimento nas refeições.

Para isso, a Prefeitura de Campinas e o Pé de Feijão se revezam semanalmente para a realização de oficinas de prática agrícola, compostagem, alimentação e reaproveitamento de ingredientes. Os encontros ocorrem todas as terças-feiras.  Ao longo do projeto, serão 30 oficinas de diversos temas, que podem variar conforme as demandas que a comunidade traz, e 10 mutirões de cuidados com a horta. O objetivo é que sempre haja alguma atividade para movimentar o local, a fim de manter a população mobilizada, engajada, próxima do projeto e fazer com que eles criem uma rotina de cuidado com as plantas.

“Nós percebemos que a maior parte do público é mais experiente. São pessoas que têm uma vivência, mas que estão dispostas a ter novos conhecimentos. As pessoas têm o desejo de aprender, ensinar, elas têm cultivado e entenderam a essência da criação dessa horta urbana”, ressalta a secretária.

Pandemia impulsionou projetos de hortas urbanas

Em 2020, a FEAC já havia trabalhado ao lado do Pé de Feijão nos projetos das hortas urbanas na comunidade do Menino Chorão, na região do Campo Belo, e no São Judas, na Cidade Satélite Íris. Ambos tiveram impactos muito positivos para a população da região e a ideia foi justamente ampliar um projeto fruto de uma parceria que já vinha dando certo no passado.

“A gente começou a pensar nesse projeto com a pandemia, porque a gente entendia que Campinas estava sofrendo com a insegurança alimentar e as pessoas precisavam buscar recursos de alguma forma”, explica Bárbara.

Segundo informações do Cadastro Único (CadÚnico) de Campinas, até o último trimestre do ano passado 62.882 famílias viviam em situação de extrema pobreza (renda de até R$ 105 por pessoa). Estima-se que a insegurança alimentar atinja 12,3% da população da cidade.

Como forma de combater a fome, as hortas urbanas têm ganhado força em várias cidades do país e também estão no horizonte da Prefeitura Municipal de Campinas, por meio do Programa Campinas Solidária e Sustentável. Assim, surgiu o acordo de cooperação técnica entre a Secretaria de Assistência Social e a FEAC, o que fez com que o Projeto Cultivando pudesse ganhar vida no Jardim Florence.

O objetivo foi unir esforços entre o poder público e a sociedade civil, representada pela FEAC, assim como a própria comunidade, que se engajou desde o princípio. “Com essa mobilização, a gente vai trazer impactos para toda a sociedade”, afirma a secretária de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos de Campinas.

Projeto se tornará política pública em Campinas

Atualmente, o projeto se encontra na etapa de regulamentação para que possa se tornar uma política pública e ser permanente, independente de futuros governos. “A política pública é garantia de direitos, mas é também a garantia de uma vida saudável. Uma vida saudável é viver em comunidade, é ter um propósito de vida, e a horta urbana traz isso com muita facilidade”, comenta Vandecleya.

Em junho, Campinas participou do Prêmio Cidades Sustentáveis: Acelerando a implementação da Agenda 2030 e conquistou o terceiro lugar no eixo social com Projeto Piloto de Horta Comunitária: Cultivando no Florence. No eixo econômico e ambiental, o município alcançou a segunda posição com a Usina Verde – Implantação e Operação de Usina de Compostagem de Resíduos Orgânicos e Estação Produtora de Água de Reuso (EPAR), respectivamente.

O que podemos esperar do futuro da horta?

O projeto tem duração de, no mínimo, 24 meses e a ideia é que a FEAC invista em 230 m² de horta no terreno e continue realizando a parte de mobilização, engajamento, diagnóstico, formação do grupo e toda a parte técnica de informação agroecológica, ao lado da cogestão do Pé de Feijão.

“Este ano é focado na formação de práticas agroecológicas. Ano que vem, a intenção é fazer com que que eles consigam gerar renda e sejam um grupo produtivo”, comenta Bárbara. “É uma forma de trazer o empreendedorismo, para que eles sejam rentáveis e resilientes.”

A ideia é que, futuramente, além de capacitar essa população, fazendo com que eles obtenham conhecimento em práticas agroecológicas, o projeto assuma um caráter mais comercial. “Começamos a trazer em algumas oficinas a temática de plano de negócio, para ver onde e se eles querem investir nessa organização, para formar uma associação/cooperativa, mas que eles consigam gerar renda através da horta”, complementa a especialista.

A infraestrutura permanecerá sob responsabilidade do setor público, por meio da instalação de um container que vai abrigar os banheiros, uma sala para guardar as ferramentas, mesas e cadeiras utilizadas durante as oficinas. Além disso, o projeto contará com sistema de irrigação, caixa d’água, estufa e uma tenda.

“A expectativa quando a gente fala sobre hortas urbanas é de alimentação saudável, segurança alimentar e transformação de vidas. Criar ali um ciclo virtuoso de práticas produtivas saudáveis e que isso possa estimular outras pessoas e a própria comunidade”, revela Vandecleya.

Por Bárbara Vetos

Revista Narrativa Social nº 29 – Negócios de impacto social

Edição 29 – Negócios de impacto social

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