Existem muitas formas de contribuir positivamente para o bem-estar de pessoas em situação de vulnerabilidade social e uma delas é por meio do voluntariado. Essa prática já é uma realidade para 57 milhões de voluntários ativos no Brasil.

Engajamento que, somado, corresponde a 12 bilhões de horas por ano dedicadas a esse tipo de atividade. É o que revela a pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, realizada pelo Datafolha e elaborada por Silvia Naccache. O estudo analisa o perfil do voluntariado no Brasil, mostrando como esse cenário vem se transformando ao longo dos anos e indicando as principais tendências do setor.

Mostrou que, com a pandemia, a situação emergencial fez com que o interesse e a procura pelo voluntariado aumentassem e um dos segmentos que ganhou impulso foi o empresarial, que mobilizou cerca de 8 milhões de profissionais em 2021.

Empresas têm cada vez mais participação nas práticas de voluntariado

Muitos programas de voluntariado corporativo se adaptaram, continuando suas atividades em diversas comunidades e demonstrando ser uma ferramenta importante para acelerar o impacto social das iniciativas.

De acordo com a pesquisa, os voluntários empresariais dedicaram 21 horas/mês a práticas solidárias e representaram 15% do total de voluntários no Brasil. Uma das ações que surgiram neste contexto é o Via Conexão, uma parceria da Fundação FEAC com organizações da sociedade civil e empresas que nasceu em modelo remoto, em 2020.

O projeto se fortaleceu nos últimos anos e formou dezenas de pessoas por meio de um programa de mentoria corporativa, realizado voluntariamente por profissionais da Azul Linhas Aéreas (leia mais sobre o projeto ao final da matéria).

A prática do voluntariado vem sendo impulsionada pelas empresas, que veem nessas atividades uma oportunidade de fortalecer o seu compromisso social. O relatório Benchmarking do Investimento Social Corporativo (Bisc) de 2023 da Comunitas revela que os investimentos sociais voluntários das empresas mapeadas somam R$ 4.026 bilhões.

O cálculo é feito com base no percentual de lucro bruto das companhias que é destinado à pauta social. Mas isso não é uma tendência somente das companhias, que se mostram cada vez mais engajadas no tema. Para os voluntários também, visto que 15% deles já fazem parte de programas corporativos, conforme mostrou a pesquisa do Datafolha

O voluntariado empresarial atua como um agente facilitador e promotor das práticas de voluntariado no país. “[A empresa] mostra que sua atuação vai além do negócio e valoriza o capital mais precioso que existe dentro dela, que é o capital humano”, diz Silvia Naccache, empreendedora social, consultora em responsabilidade social e desenvolvimento sustentável e coordenadora do levantamento Voluntariado no Brasil 2021. Ao estimular essas iniciativas, é possível estabelecer uma relação saudável com o território e a comunidade.

Boa parte das atividades voluntárias corporativas é realizada em parceria com organizações da sociedade civil que já atuam em determinado território ou com um público específico. “A prática é muito importante no terceiro setor porque potencializa ações que já acontecem dentro das organizações e agregam novas experiências para a instituição e para a comunidade”, explica Gabriela Ferreira, assistente de projetos do Programa Cidadania e Impacto Social, da Fundação FEAC. Para ela, os repertórios trazidos pelos voluntários são muito benéficos para a rede do terceiro setor.

Voluntariado corporativo contribui para uma formação mais humana

Essas práticas também estão atreladas a uma sigla muito conhecida, principalmente, no universo corporativo: ESG, do inglês, environmental, social and governance. O que nada mais é do que a abordagem utilizada para tratar das questões ambientais, sociais e de governança adotadas em uma corporação. Para Silvia, o voluntariado está diretamente relacionado às questões ESG, inclusive no que diz respeito aos funcionários.

“O ‘S’ de ESG dialoga internamente com os trabalhadores quando fala sobre inclusão, diversidade, questões LGBTQIAPN+, de gênero e raciais. Além de criar uma relação do território com a comunidade.”, revela Silvia. “A prática do voluntariado corporativo atende a essas duas agendas: interna e externa”.

Na perspectiva empresarial, o voluntariado também se mostra positivo nos impactos que gera não só para a cultura interna da instituição, mas para seus funcionários. É uma forma de eles desenvolverem talentos, habilidades, competências socioemocionais (soft skills), aprenderem a liderar e a trabalhar em equipe. “Ali, ele entende que é possível ser criativo e fazer muito com poucos recursos”, reforça Silvia.

A coordenadora conta que, além de ter a oportunidade de se conectar com novas causas, o voluntário passa a ter uma nova visão de mundo, exercendo sua cidadania e gerando bem-estar a si e ao próximo.

E se todo mundo só tem a ganhar nessa relação, para a sociedade os resultados não poderiam ser diferentes. “São ações que influenciam políticas públicas, que discutem a justiça social, que valorizam a comunidade na escuta ativa das demandas reais daquele território”, reforça Silvia.

Encerramento da quarta turma do projeto Via Conexão, da FEAC

Nessa segunda-feira (11/12), o projeto social Via Conexão realizou a formatura de sua quarta turma de mentorados (confira as fotos do evento ao final do texto). O projeto é executado desde 2020 e reúne a Fundação FEAC, a companhia Azul Linhas Aéreas Brasileiras e organizações da sociedade civil.

Segundo Gabriela Ferreira, da FEAC, esta edição teve uma procura ainda maior que as anteriores, com 240 pessoas interessadas em ingressar no programa de mentoria com os funcionários da Azul. Na edição passada, o projeto formou 81 jovens em situação de vulnerabilidade social, com e sem deficiência.

O Via Conexão busca colocar profissionais e jovens em contato por meio de um processo de mentoria voluntária, com o intuito de auxiliá-los na construção de um projeto de vida, desenvolvimento de novas competências, e descobertas relacionadas ao autoconhecimento.

“[O projeto] é bom porque traz uma representatividade de um outro público para essa mentoria, sensibilizando também os voluntários da Azul”, diz Gabriela. A iniciativa acaba expandindo os horizontes tanto dos voluntários quanto dos beneficiados, que enxergam uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional.

Em setembro, a Azul ganhou o Prêmio Aplaude na categoria “Destaque em Diversidade” com o projeto Via Conexão. Promovido pelo Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), a premiação tem como objetivo oferecer maior visibilidade a iniciativas que proporcionem transformações sociais de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU.

Por Bárbara Vetos

Revista Narrativa Social nº 34 – Terceiro setor

   Edição 34 – Terceiro setor

 

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