É possível enfrentar problemas sociais e ambientais do Brasil com modelos de negócios que visem lucro e ao mesmo tempo fomentem o desenvolvimento de comunidades vulnerabilizadas? Muitos empreendedores e investidores acreditam que sim, que é este o futuro dos negócios e dos investimentos e que uma mudança de paradigma vem sendo construída.

O lançamento da Coalizão pelo Impacto (saiba mais abaixo), iniciativa que chegou a Campinas na terça-feira (16), mobilizando empresas do setor privado, universidade, organizações da sociedade civil e entidades filantrópicas, confere mais visibilidade à temática e estimula o debate sobre um ecossistema de inovação social que vem crescendo no Brasil nas últimas duas décadas.

A Fundação FEAC está atuando como investidora da iniciativa e parceira estratégica na implementação. “O objetivo é estimular o ecossistema de negócios de impacto em Campinas e atrair investidores para esse propósito. Com mais e melhores negócios de impacto atuando nas demandas sociais e ambientais, toda a população vulnerável do município será beneficiada, além de impulsionar a economia local”, afirma Marcelo Patarro, líder do Programa Desenvolvimento Territorial, da FEAC.

Os negócios de impacto social e ambiental se inserem no que se convencionou chamar de setor 2.5 ou dois e meio. “Caminha entre o segundo e o terceiro setores, ou seja, entre o setor privado com fins lucrativos, e as organizações da sociedade civil que atuam sem fins lucrativos. Tem propósitos do terceiro setor e lógica de mercado”, sintetiza Camila Campos Brasil, diretora do Centro de Economia e Administração (CEA), da PUC Campinas.

Futuro dos negócios?

Para ela, o setor 2.5, com negócios que possuem outros propósitos, além do lucro, está ganhando espaço entre os futuros empreendedores. “Ainda são temas de vanguarda, mas já temos mais de uma geração de alunos com esse olhar sensibilizado para os problemas sociais. É o futuro dos negócios”, aposta Camila, acrescentando que no CEA, os negócios de impacto são parte do projeto pedagógico dos cursos.

O assunto também está no radar do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que oferece cursos sobre negócios de impacto social e ambiental e orientação a empreendedores que estão neste caminho.

Para o Sebrae, o setor 2.5 envolve iniciativas financeiramente sustentáveis, com viés econômico e caráter social e/ou ambiental e “que contribuam para transformar a realidade das populações menos favorecidas e fomentem o desenvolvimento da economia nacional”. Relatório produzido em 2017 pela organização registrou que entre 20% e 30% das demandas que chegam ao serviço estão no setor de negócios de impacto.

Um modelo não substitui o outro

“É muito importante registrar que os negócios de impacto não chegam para substituir as políticas públicas, empresas tradicionais ou terceiro setor. Os negócios de impacto existem para somar com as soluções que já funcionam”, explica Diogo Quitério, coordenador do ICE. Formado em administração de empresas, ele também atua como um dos coordenadores da Coalizão pelo Impacto.

Diogo aponta que, se olharmos para os negócios ao longo da história, vamos identificar diversas atividades que trazem soluções para o setor de saúde, moradia, acessibilidade e mobilidade, por exemplo. “Os negócios com impacto social positivo não surgiram nos últimos dez anos, mas hoje já conseguimos identificar melhor as principais características que esses negócios trazem”, ensina Diogo (confira no box). “É importante dar contornos claros para este tipo de negócio e impulsioná-los para que mais negócios com essas características surjam no futuro”, completa.

Para Diogo, a existência de dados e indicadores sociais e ambientais específicos para apontar a efetividade de um negócio é um ponto estratégico. “Este é um pulo do gato, uma trincheira superimportante porque nós saímos do universo das boas intenções, do empreendedor que tem o brilho nos olhos. Ele tem a intenção, como comprovar e, também, o compromisso de acompanhar a efetividade desta solução”, salienta.

Quais as principais características de um negócio do setor 2.5

1. Clareza e comprometimento do empreendedor com a transformação socioambiental positiva. Esse empreendedor entende, conhece e estuda uma situação desafiadora e se compromete a resolver esse problema.

2. O empreendimento que esse empreendedor estrutura traz a solução do problema dentro da estratégia central do empreendimento. Não se trata de vender um produto e, paralelo a isso, ter um programa de voluntariado ou de apoio a creches. Não. O motivo pelo qual o empreendimento existe é para solucionar este problema.

3. Esse empreendedor já começa o negócio pensando na sustentabilidade financeira: rentabilidade, comercialização de produtos e serviços, clientes, segmentação de mercado e precificação. São diretrizes que estão numa lógica de negócios, mas que ele está operando para produtos e serviços que resolvem problemas sociais e ambientais.

4. Esse empreendedor tem indicadores, que variam a depender da área escolhida para atuar, que o auxiliam a acompanhar se ele está de fato promovendo uma transformação social e ambiental.

 

 

Um salto de maturidade empresarial

O economista norte-americano Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Nobel de Economia, em 1976, e um dos principais representantes do liberalismo econômico, defendia que o propósito central de uma empresa é gerar lucro para os acionistas. Este entendimento norteou executivos por algumas décadas, mas vem sendo revisto. Além da agenda ESG, outro salto de maturidade dos novos empreendedores é justamente o comprometimento com uma visão de impacto social e ambiental positivos.

“O impacto não acontece de maneira isolada, ele requer uma ação coletiva, uma combinação de resultados de pessoas empreendedoras e comprometidas com uma causa”, explica Ruy Camargo, diretor de operações da Impact Hub São Paulo, uma organização conectada a uma rede global de empreendedores que tem o propósito de desenvolver soluções e negócios que transformam realidades.

A Impact Hub surgiu em 2005, em Londres, da necessidade identificada por ativistas do terceiro setor de criar um espaço colaborativo para a inovação social dentro do setor privado. Em 2007, nasceu o Impact Hub São Paulo, com a missão de trabalhar com impacto social e ambiental e oferecer toda uma infraestrutura para os empreendedores.

“Hoje nós já construímos uma rede de 20 mil membros, estamos em 8 cidades e cem mil pessoas já foram impactadas pelos nossos programas”, conta Camargo, explicando que a Impact Hub atua conectada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS e realiza projetos em diversas causas: juventude, educação empreendedora, mudanças climáticas, igualdade de gênero, cidades sustentáveis, entre muitas outras.

No amplo repertório da Impact Hub, Camargo destaca a articulação realizada junto a diversas empresas da cadeia de valor de construção, através do programa HousingPact. “Esta articulação no segmento da construção foi para levar novas tecnologias e soluções inovadoras para as moradias de baixa renda na periferia de São Paulo. Estamos conciliando essas novas agendas com antigas práticas de empresas que estão reinventando os seus negócios para ter um portfólio e produção de produtos com menor pegada de carbono”, diz ele.

Coalizão pelo Impacto

A Coalizão de Impacto é uma realização do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) ao lado do Instituto Helda Gerdau, Instituto humanize e Somos um. A Fundação FEAC é um dos parceiros estratégicos da iniciativa, ao lado de outros grupos, como Cosan, Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Instituto Sabin e RD.

Até 2026, a iniciativa prevê aportar R$ 29 milhões para potencializar simultaneamente, em parceria com organizações locais, ecossistemas de investimentos e negócios de impacto em municípios das 5 regiões do Brasil. Fazem parte do projeto as cidades de Brasília (DF), Porto Alegre (RS), Fortaleza (CE), Belém (PA), Campinas (SP) e Paranaguá (PR).

Por Natália Rangel