Ninguém conhece melhor as necessidades de um bairro do que os próprios moradores. Mas, para além das eleições, como eles podem fazer suas vozes serem ouvidas pelo poder público? Como organizar uma mobilização popular e lutar por melhorias concretas para transformar um bairro, uma cidade?  

Para conquistar mudanças, as pessoas têm de estar organizadas e atuar de forma estratégica. É o que comprova o coletivo Mobiliza Satélite, formado por nove moradores da Cidade Satélite Íris, de Campinas, e que em agosto conseguiu melhorias no transporte público local.  

Após consultar a população sobre quais as demandas mais importantes para a região, foi iniciado um processo de pressão sobre o governo municipal que resultou na instalação de mais três pontos de ônibus no bairro, uma pauta antiga dos moradores.  

O coletivo é fruto do projeto Lideração, parceria da Fundação FEAC com a Minha Campinas – organização que fortalece a participação popular. O objetivo é estimular cidadãos a ocuparem papel de liderança em seus territórios, buscando transformações sociais concretas. O projeto teve início em abril de 2021 e o Satélite Íris foi o primeiro bairro contemplado.  

“Questões sobre mobilidade, iluminação, segurança, ampliação no tempo de atendimento dos postos de saúde são algumas das demandas trazidas pelos moradores, que precisam de informação para saber onde e como recorrer”, explica Marcela Doni, analista de projetos do Programa Cidadania Ativa da FEAC.  

Formando lideranças 

Para participar do Lideração, não é preciso conhecimento prévio sobre políticas públicas. Os integrantes passam por um ciclo de formação de 12 horas do Minha Campinas, no qual são apresentados temas que permeiam a vida política como democracia e participação, direitos humanos, Constituição Federal, três poderes, entre outros.   

O projeto também se caracteriza por ser “mão na massa”: os participantes selecionam um problema no bairro e criam uma campanha de mobilização popular, com o objetivo de reivindicar a solução.  

Conversando com moradores do Satélite Íris, os membros do coletivo perceberam que a questão da mobilidade era a pauta mais importante naquele momento. O ônibus não transitava pelas ruas da parte mais baixa do bairro – algumas pessoas chegavam a ter de subir uma ladeira de cerca de cinco quarteirões para alcançar um ponto.  

“A gente pensou em muitos problemas. Por consenso do que era mais urgente, optamos pelo trajeto do ônibus”, explica Rogério dos Santos Souza, que trabalha com vendas, nunca havia atuado politicamente e se interessou pelo coletivo assim que recebeu um e-mail sobre a iniciativa.  

Estratégias de mobilização  

Para buscar mudanças efetivas, as lideranças aprendem no projeto a utilizar estratégias de mobilização popular como abaixo-assinados físicos e virtuais, ofícios ao poder público, e e-mails para tomadores de decisões. A ideia é mostrar a força da pauta.   

“As ferramentas são importantes porque concentram o poder de todas as pessoas que querem participar. É um nível de voluntariado muito simples: é só assinar abaixo-assinados ou mandar e-mail, por exemplo, e já contribui para uma conquista coletiva”, explica Cláudia Helena Oliveira, diretora de mobilização do Minha Campinas.  

No caso do Mobiliza Satélite, a principal estratégia foi pressão por e-mail, dirigida ao secretário Municipal de Transporte, Vinícius Riverete. O coletivo lançou uma página virtual, desenvolvida pelo Minha Campinas, onde qualquer um conseguia mandar uma mensagem direta ao secretário. Foram mais de 400 e-mails enviados durante os dois meses de campanha.   

O coletivo também contou com abaixo-assinados físicos e carro de som no bairro, para pedir engajamento dos moradores. A campanha coletou mais de 800 assinaturas.  

Diante das reivindicações, o secretário convidou os líderes para uma reunião presencial. “Eu sou funcionário da população. Todo cidadão tem que ir atrás dos seus direitos e foi isso que eles fizeram”, diz Vinícius. 

O secretário, que assumiu em janeiro de 2021, ainda ressalta que a população ajudou sua pasta a perceber o problema de circulação de ônibus que havia no bairro, pois a última pesquisa sobre pontos de embarque e  desembarque de Campinas é de 2010. 

Rogério, por sua vez, diz que “o processo foi rápido, ele [o secretário] abriu as portas e a gente saiu da reunião com o novo trajeto do ônibus definido. No início de agosto, os novos pontos já começaram a funcionar.”  

Após a primeira conquista, o Mobiliza Satélite segue ativo. Rogério conta que a próxima ação será a solicitação de um pediatra no posto de saúde do bairro, que não dispõe dessa especialidade. Como membro do coletivo, ele acredita que outros bairros de Campinas podem se mobilizar da mesma maneira que o Satélite Íris. Porém, existem desafios para que isso aconteça.  

Segundo Cláudia, do Minha Campinas, a descrença na política é um dos principais. “É difícil as pessoas acreditarem que é possível conquistar mudanças. Isso vai gerando individualismo e não participação, o que é muito prejudicial quando falamos em cidadania.”  

Mais espaço para participação 

Educação política e estímulo à participação popular são, de acordo com ela, caminhos para mitigar a descrença. Além do trabalho com a população, Cláudia aponta que é preciso pressionar o poder público “para que abra mais espaços de participação e diálogo no dia a dia”.  

O secretário Vinícius também ressalta a importância de se ouvir mais a sociedade. “Às vezes, numa reunião com a população, surgem ideias que quem trabalha no poder público há 30 anos nunca teve. Essas pessoas vivem o problema.” 

O projeto Lideração segue formando novas lideranças. No momento, moradores de três bairros participam do ciclo de formação: Dom Gilberto, Vida Nova e San Martin. A expectativa é fechar o ano com 28 líderes comunitários engajados e atuantes, preparados para ações de impacto real em suas comunidades.  

Por Laíza Castanhari