Por Laíza Castanhari
“No futuro, eu quero ser uma grande atriz ou uma grande empresária”, sonha Mayara Teixeira Samora, 21 anos, que como qualquer jovem, possui planos de vida. Mas os seus são colocados em dúvida por uma sociedade que, muitas vezes, não sabe que pessoas como ela, com síndrome de Down, são capazes de sonhar com sua autonomia e de conquistá-la. Trata-se das barreiras atitudinais: atitudes de terceiros que limitam ou impedem a inclusão da pessoa com deficiência.
Mayara conheceu essas barreiras quando ainda era criança, aos seis anos. Ela conta que era a única aluna com síndrome de Down. “A professora me deixava de canto, dava atividade para todo mundo e me excluía totalmente”, lembra-se. “Eu comecei a ficar com depressão, meu cabelo começou a cair… só melhorei quando troquei de escola. Consegui uma bolsa de estudos e fui mais acolhida na nova, os professores me receberam muito bem.”
A síndrome de Down é uma condição genética causada pela presença de um cromossomo a mais. Sendo assim, os indivíduos possuem 47 em cada célula, em vez dos habituais 46. Eles possuem todos os benefícios e direitos garantidos pela Lei Brasileira da Inclusão (LBI), voltada a pessoas com deficiência. Estudar em uma escola regular é um deles.
Claudete de Lima, coordenadora geral do Centro Síndrome de Down (Cesd), analisa que todos ganham com a participação dos alunos com deficiência: “A inclusão faz bem para todo mundo, porque quem puder conviver com a diversidade, em um espaço comum, vai ser um adulto melhor.”
No ensino fundamental, Mayara contou com uma professora auxiliar, que sentava com ela para apoiá-la nas atividades. “Eu tinha bastante dificuldade, mas a minha mãe conversou lá na escola e eles se adaptaram.” Dessa forma, Mayara realizava os trabalhos e provas como todos os seus colegas.
A jovem diz que sua maior dificuldade é na escrita. Por outro lado, na comunicação oral, Mayara é desenvolta e se expressa sem dificuldades: “Eu comecei a falar com cinco anos e não parei mais”.
A leitura é uma de suas companhias preferidas. Um dos seus hobbies é ler na companhia do seu sobrinho, de 15 anos. Mayara mostra dois livros que está lendo no momento: uma história de suspense, da Agatha Christie, e um livro de receitas, pois adora cozinhar. “Português cai muito no Enem e eu tenho que me preparar bastante”, acrescenta.
Caminhos profissionais
Mayara realizou o Enem duas vezes: na primeira, em 2017, queria cursar artes cênicas, mas não atingiu a nota necessária. Neste ano, decidiu fazer a prova novamente. “Eu estou fazendo curso de capacitação profissional em recursos humanos e quero fazer faculdade na área também”, planeja.
Mais do que estudar e trabalhar, Mayara almeja a sua independência financeira: “Eu tenho o sonho de fazer faculdade, mas pagar com meu próprio dinheiro, quero morar sozinha”. Ela está construindo seu caminho: há dois anos, trabalha como auxiliar administrativa em uma empresa e declara o seu apreço aos colegas, que a acolheram muito bem.
A oportunidade de emprego surgiu quando Mayara participou do Projeto LAB Inclusão, executado pelo Cesd, em parceria com a Fundação FEAC, voltado para pessoas com síndrome de Down ou com deficiência. “É o emprego além da cota: a empresa não deve empregar só por conta disso”, explica a coordenadora Claudete, que acrescenta: “Deve empregar porque é uma pessoa produtiva, e vai ser uma pessoa com protagonismo”.
Mayara participou deste projeto, que utiliza a metodologia do Emprego Apoiado assim que terminou o Ensino Médio. “Eu fiquei muito à vontade, tinha acompanhamento com psicóloga, terapeuta ocupacional, fonoaudióloga e pedagogo”, explica. Após uma visita, com a equipe técnica do programa, na atual empresa onde trabalha, ela foi chamada para uma entrevista e acabou contratada.
Mayara passou pelas três fases do programa. A primeira é a descoberta do perfil profissional da pessoa e seus interesses. “Não é porque alguém tem deficiência que necessariamente precisa trabalhar nas vagas ‘exclusivas’ que o mercado normalmente oferece”, explica Viviane de Faria Machado, analista de projetos do Programa Mobilização para Autonomia, da FEAC.
Na segunda fase é feita a busca das vagas. Ao mesmo tempo, é realizado um trabalho de sensibilização e acessibilidade atitudinal nas empresas parceiras. Na terceira fase, quando a pessoa já está empregada, ela e a empresa recebem o acompanhamento e apoio necessários para que a inclusão seja benéfica para ambos.
Lab Inclusão: trabalho em rede
O Emprego Apoiado é voltado a jovens a partir dos 15 anos. O objetivo é proporcionar apoio para a inclusão no mercado de trabalho. Além do Cesd, a FEAC conta com outras organizações parceiras (Guardinha – AEDHA e Sorri Campinas) para estimular a empregabilidade de pessoas com síndrome de Down e pessoas com deficiência. Essa rede forma o Lab Inclusão.
A iniciativa nasceu em 2018 e já incluiu 247 pessoas no mercado de trabalho, com uma taxa de permanência de cerca de 96%. Todas as organizações da rede utilizam a mesma metodologia: a chamada “Emprego Apoiado”, desenvolvida nos Estados Unidos, na década de 80, que possui um planejamento centrado nas potencialidades e interesses de cada indivíduo.
“É comum vermos pessoas que participam de vários processos de formação sem nunca de fato ter tido a oportunidade de ingressar no mercado de trabalho”, explica Viviane. “Nossa metodologia inverte essa lógica, propondo uma inclusão efetiva da pessoa com deficiência para que, depois, recebendo todos os apoios necessários, ela possa desenvolver sua função e de fato ser produtiva.”
Mayara já foi chamada para dar palestras sobre o programa e adora as oportunidades para falar em público. Ela descobriu uma maneira de utilizar a sua experiência para empoderar outras pessoas a serem autônomas.
“Eu aprendi que as pessoas com síndrome de Down precisam ter voz ativa. O meu conselho é que lutem pelos seus direitos, não deixe ninguém falar que você não é capaz”, diz Mayara. “Eu tenho minhas limitações, mas sei que tenho capacidade para fazer muitas coisas. O que eu tenho dificuldade eu vou buscar ajuda…não precisa ter vergonha.”
Com a sua voz, Mayara estimula que as barreiras diminuam: “A sociedade ainda precisa melhorar muito, dar mais oportunidades de emprego, educação, cultura e lazer. As pessoas precisam ter mais acesso a informações, essa falta é que gera o preconceito.”