Desde o começo de 2021, 55 alunos de seis escolas de ensino médio de áreas vulneráveis da região metropolitana de Campinas têm acesso, no contraturno escolar, a uma das mais avançadas metodologias de ensino do mundo: o Full STEAM Ahead, criado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Para participar, basta ter interesse por tecnologia, ciência e inovação.

O método tem como objetivo desenvolver habilidades de ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática. “Ao invés de ensinar aulas diferentes em cada dia, o STEAM é orientado à aprendizagem a partir de projetos práticos, com a mão na massa, aprendendo com erros e acertos ao longo da construção do projeto”, explica o analista de sistemas Geraldo Barros, 24, fundador da Casa Hacker, organização que promove a emancipação digital de comunidades em situação de vulnerabilidade.

Um dos grupos de alunos, por exemplo, está desenvolvendo um farm bot, um robô capaz de cuidar sozinho de uma horta com diversos tipos de planta. Semanalmente, eles se reúnem para avançar um pouco mais no projeto, o que envolve realizar testes, medir resultados, reparar erros e aprimorar o modelo. No processo, aprendem e aplicam conhecimentos como programação, mecânica e biologia.

É a Casa Hacker, criada por Geraldo em 2018, que leva para as seis escolas a metodologia do MIT, com o programa #HackerClubs. Esse é um dos vários projetos de inclusão tecnológica da Casa Hacker, que tem como objetivo combater a desigualdade no Brasil.

Trata-se também de uma instituição nascida na periferia para a periferia. Geraldo vive desde criança no Campo Grande, bairro no sudoeste de Campinas, região com o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano dentre as seis regiões da cidade. E foi ali que a Casa Hacker nasceu e se fixou.

Inclusão digital

Não é exagero dizer que o combate à desigualdade no país tenha de passar pela inclusão tecnológica de pessoas em situação de vulnerabilidade. Segundo a pesquisa “Habilidades digitais no Brasil”, publicada em abril de 2019 pela consultoria McKinsey, existe uma correlação positiva entre o aprimoramento de competências digitais e a geração de renda.

O estudo mostra, por exemplo, que indivíduos com essas habilidades usam três vezes mais as plataformas digitais para gerar renda com venda de produtos ou serviços, trabalhando em aplicativos de transporte ou produzindo conteúdo para compartilhamento.

Além disso, essas pessoas têm cinco vezes mais chances de usar uma plataforma on-line para procurar emprego, dobrando a possibilidade de serem contratadas para a vaga desejada. A pesquisa estima também que o aprimoramento nas competências digitais de 21 milhões de brasileiros pode levar a um acréscimo de até U$ 70 bilhões no PIB nacional.

No entanto, segundo a edição mais recente, de 2020, da pesquisa TIC Domicílios, do Comitê Gestor da Internet, que mapeia o uso de tecnologias da informação pelos brasileiros, 36% dos lares nas classes D e E não têm acesso à internet e 87% deles não têm computador.

“A Casa Hacker foi criada com o propósito de aprimorar as habilidades digitais da comunidade, levando ao desenvolvimento econômico local e à melhora em indicadores econômicos”, diz Geraldo, que desde os 15 anos atua em projetos de inclusão tecnológica.

Foi esse objetivo que fez a Fundação FEAC escolher a instituição como um das premiadas, em 2018, em um edital de apoio financeiro a projetos de fortalecimento comunitário.

Isso permitiu que a Casa Hacker conseguisse oferecer diversos cursos a preços populares, em torno de R$ 30, e também com oferecimento de bolsas gratuitas para pessoas em situação de vulnerabilidade e mulheres, e que já capacitaram mais de 900 pessoas no uso de tecnologia da informação. Além disso, a instituição também oferece equipamentos, como computadores e até acesso à internet, para quem precisa. Cada escola participante do #HackerClubs, por exemplo, recebeu uma impressora 3-D.

Do individual ao coletivo

Até 2019, o foco da Casa Hacker era a atuação no âmbito individual, com as formações em tecnologia. Naquele ano, a instituição participou de um programa de incubação da Fundação Telefonica Vivo. E foi essa experiência que levou a FEAC a procurar a Casa Hacker para se tornar uma incubadora de projetos da periferia, passando para frente o conhecimento adquirido.

“Por causa da experiência deles com qualificação na área de tecnologia, achamos que eles poderiam incubar a agência de comunicação Mandinga de Favela, criada por jovens da periferia com nosso apoio”, diz Tatiane Zamai, líder do Programa Juventudes, da FEAC.

A Casa Hacker, em parceria com a fundação, passou então a fazer outros programas de incubação de projetos de jovens da periferia. “Os territórios em situação de vulnerabilidade têm potência, mas falta muitas vezes a técnica para colocar as ideias em ação”, afirma Tatiane.

Nesse processo de incubação, Ana Paula Cunha, gerente de projetos da Casa Hacker, explica que os jovens aprendem noções de empreendedorismo, ferramentas de gestão, gerenciamento de processos complexos e aplicação de metodologia ágil, baseada em testes constantes e aprimoramentos rápidos.

“Os jovens com os quais trabalhamos são agentes de transformação, mas precisam de renda para sobreviver. O que buscamos é garantir que em algum momento suas iniciativas se tornem financeiramente sustentáveis”, diz Ana Paula.

Em quase três anos de história, a Casa Hacker tem vários casos de sucesso para contar. Mas Geraldo sabe que ainda é preciso mais. Existem planos para expandir o modelo da Casa Hacker para outras regiões periféricas do Brasil. E ele é o primeiro a assumir o tamanho do desafio: “A inclusão tecnológica é um processo que ainda vai levar pelo menos uns 10 anos. Isso exige muito comprometimento.”

Por Frederico Kling