De repente, a sigla ESG (em português, meio ambiente, social e governança) parece ter se tornado popular, sendo usada principalmente por empresas que querem mostrar algum tipo de compromisso com essas questões. Mais do que uma impressão, essa popularidade súbita é real. A ferramenta Google Trends, que aponta tendências de pesquisa de termos na plataforma, mostra uma explosão nas buscas no Brasil por esse termo a partir de abril de 2021. No mundo, a sigla começa a ganhar tração no final de 2018.
Adotar parâmetros ESG tem a ver com os processos envolvidos nas atividades de uma empresa. Significa, por exemplo, que ela lida com a sustentabilidade ambiental de suas ações; que se importa com a diversidade e o bem-estar de seus funcionários; que adota medidas internas de combate à corrupção.
Fabio Alperowitch é um dos fundadores da Fama Investimentos, gestora de recursos pioneira na adoção de critérios ESG em seus investimentos. Ele incialmente aponta duas causas para a popularidade da sigla nos últimos tempos: Trump e Bolsonaro.
“Eles têm pautas tão anti-ESG que despertaram a necessidade de o mercado ser mais contundente sobre esses temas. Sem eles, talvez não houvesse uma reação tão forte”, explica Fabio.
Outro fator que segundo ele explica a ascensão da temática é o fato de a geração Z, composta por pessoas entre 16 e 24 anos, ser mais preocupada com certos problemas.
“Questões como preservação ambiental, crueldade animal, racismo, homofobia, entre outras, fazem parte dos valores dessa nova geração, o que significa que as empresas, quando querem vender produtos, atrair talentos ou pensar na reputação da marca precisam trazer um pouco desses conceitos”, diz o especialista.
De fato, uma pesquisa publicada em maio pela GWI, empresa especializada em gerar dados para o setor de marketing, mostra que a geração Z tem a política e a sustentabilidade ambiental entre os cinco tópicos que mais comentam em redes sociais.
Em terceiro lugar, Fabio aponta que os efeitos atuais da mudança climática também acabam trazendo força para a pauta ambiental. “Isso provocou reações contundentes do mercado, dos reguladores e da mídia”, avalia.
ESG e terceiro setor
A popularização da pauta ESG abre espaço também para parcerias entre empresas e organizações da sociedade civil (OSC).
“As OSC estão presentes nos territórios, há décadas se dedicam a essas temáticas e sabem quais são as oportunidades que existem para tratar dessas questões. Elas podem ser aliadas nas pautas ESG”, aponta Jair Resende, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC.
Para Jair, essa colaboração pode se dar de três maneiras. “As organizações podem ser orientadoras das empresas na pauta ESG. Também podem realizar em parceria iniciativas para avançar a temática. Em terceiro, podem até mesmo serem prestadoras de serviços para negócios”, enumera.
Por causa do ESG, principalmente da questão social, a FEAC tem estreitado recentemente laços de parceria com empresas, como acontece no projeto Via Conexão, que promove o voluntariado de funcionários. “Nós também fomos sondados para ajudar companhias a estruturarem seu investimento social privado”, acrescenta Jair.
Limites
“A temática ESG ainda é muito nova, é necessário um processo de convencimento das empresas, elas ainda precisam mostrar que estão colocando as pautas em prática em vez de apenas falar”, ressalta Jair.
A desconexão entre o discurso e a ação também é uma preocupação para Fabio, que argumenta: “Se a prática ESG fosse real no Brasil, o país teria muito menos problema do que tem. Se todo mundo está praticando ESG, então quem está fazendo mal ao planeta?”, questiona.
Com esse raciocínio, Fabio alerta inclusive para um mau uso de parcerias entre empresas e o terceiro setor. “Muitas companhias entendem que ao realizar doações estão cumprindo sua parte social. Isso muitas vezes funciona até como salvo conduto para transgredir. Não preciso cuidar de segurança no trabalho, não preciso ter diversidade, porque estou doando R$ 20 milhões para determinadas organizações”.
Jair e Fabio concordam, porém, que a urgência de temas sociais e ambientais vão ajudar a dar concretude ao discurso das empresas. O representante da FEAC chega a falar que o “ESG vai além de um modismo, pois será necessário para garantir nossa existência”.
Já o gestor da Fama acredita que a chegada da tal geração Z, aquela comprometida com pautas ESG, a postos executivos naturalmente levará a uma concretização do discurso. Calculando que isso deve ocorrer nos próximos oito anos, Fabio mesmo pondera: “Será que vai dar tempo?”.
Por Frederico Kling
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Edição 11 – Negócios de impacto• Aliando lucro e metas socioambientais, negócios de impacto crescem no país
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